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sexta-feira, 2 de maio de 2014

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Titusregnum
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Titusregnum


















  És um HOMEM, se...  


Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma, 
Quando os outros os perdem, e te acusam disso, 

Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam 
E, no entanto, perdoares que duvidem, 

Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança 
E não caluniares os que te caluniam, 

Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine, 
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício, 

Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre, 
Sem fazer distinção entre estes dois impostores, 

Se és capaz de ouvir a verdade que disseste, 
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos, 

Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira 
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas, 

Se és capaz de arriscar todos os teus haveres 
Num lance corajoso, alheio ao resultado, 
E perder e começar de novo o teu caminho, 
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado, 

Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos 
E fazê-los servir se já quase não servem, 
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta, 
A não ser a vontade que diz: Enfrenta! 

Se és capaz de falar ao povo e ficar digno 
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo, 

Se não pode abalar-te amigo ou inimigo 
E não sofrem decepção os que contam contigo, 

Se podes preencher todo minuto que passa 
Com sessenta segundos de tarefa acertada, 

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua, 
Será teu tudo que nela existe 

E não receies que te o tomem, 

Mas (ainda melhor que tudo isto) 
Se assim fores, serás um HOMEM. 


 Rudyard Kipling 













TITO COLAÇO
02.05.1974



















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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sic transit gloria mundi...

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     Sic transit gloria mundi...     




















 Uma obediência passiva 


O homem, bobo da sua aspiração, sombra chinesa da sua ânsia inútil, segue, revoltado e ignóbil, servo das mesmas leis químicas, no rodar imperturbável da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperança, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilusões da realidade e a realidade das suas ilusões. 
Governa Estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si memórias de batalhas, versos, estátuas e edifícios. 
A Terra esfriará sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascença, o soI um dia, se alumiou, deixará de alumiar; se deu vida, dará a si a morte. 
Outros sistemas de astros e de satélites darão porventura novas humanidades; outras espécies de eternidades fingidas alimentarão almas de outra espécie; outras crenças passarão em corredores longínquos da realidade múltipla. 
Cristos outros subirão em vão a novas cruzes. 
Novas seitas secretas terão na mão os segredos da magia ou da Cabala. 
E essa magia será outra, e essa Cabala diferente. 
Só uma obediência passiva, sem revoltas nem sorrisos, tão escrava como a revolta, é o sistema espiritual adequado à exterioridade absoluta da nossa vida serva. 


 Álvaro de Campos 
 "Páginas íntimas e de auto-interpretação'















  Os verdadeiros burros e os falsos loucos  

O mais esperto dos homens é aquele que, pelo menos no meu parecer, espontâneamente, uma vez por mês, no mínimo, se chama a si mesmo asno..., coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. 
Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje... nada disso. 
E a tal ponto tudo hoje está mudado que, valha-me Deus!, não há maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um propósito. 
Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. 
Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: "Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo". 
Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo. "X endoideceu...; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar". Não; há tempos já que a conclusão não é lícita. 

 Fiodor Dostoievski 
"Diário de um escritor"




























TITO COLAÇO
___ V ___ MMXIV







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