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terça-feira, 10 de junho de 2014

Aliud est facere, aliud est dicere...





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Aliud est facere, aliud est dicere...











  Alegria e tranquilidade  

A alegria pode sofrer interrupções no caso de pessoas ainda insuficientemente avançadas, enquanto, no caso do sábio, o bem estar é um tecido contínuo que nenhuma ocorrência, nenhum acidente pode romper, em todo o tempo, em todo o lugar o sábio goza de tranquilidade! Porquê? 
Porque o sábio não depende de factores externos, não está à espera dos favores da fortuna ou dos outros homens. 
A sua felicidade está dentro dele, fazê-la vir de fora seria expulsá-la da alma, que é onde, de facto, a felicidade nasce! 
Pode uma vez por outra surgir qualquer ocorrência que lembre ao sábio a sua condição de mortal, mas ocorrências deste tipo são de somenos importância e não o atingem mais do que à flor da pele.
O sábio, insisto, pode ser tocado ao de leve por um ou outro contratempo, mas para ele o sumo bem permanece inalterável. 
Volto a dizer que lhe podem ocorrer contratempos provindos do exterior, tal como um homem de físico robusto não está livre de um furúnculo ou de uma ferida superficial, em profundidade, porém, não há mal que o atinja.
A diferença existente, insisto ainda outra vez, entre o homem que atingiu a plenitude da sabedoria e aquele que ainda lá não chegou é a mesma que se verifica entre um homem são e um convalescente de doença grave e prolongada. Para este a diminuição da intensidade da doença já quase significa saúde mas, se não se precaver, o mal rapidamente se agrava e volta à primitiva forma, o sábio, em contrapartida, nem pode retroceder, nem sequer avançar mais na via da sapiência.
A saúde do corpo está à mercê do tempo e o médico, se a pode restituir, não a pode garantir perpetuamente, e tanto assim é que com frequência o mesmo doente o volta de novo a chamar, a saúde da alma, essa, obtém-se de uma vez por todas, e totalmente! 
Dir-te-ei agora o que significa uma alma sã: é cada um contentar-se consigo mesmo, ter confiança em si próprio, saber que todos os votos feitos pelos homens, todos os benefícios que trocam entre si não têm a mínima importância para a obtenção da felicidade. 
Uma coisa passível de acréscimo não é uma coisa perfeita, o homem que quer vir a possuir uma permanente alegria, tem de fruir apenas do que efectivamente lhe pertence. 
Ora todos os bens a que o comum dos mortais aspira são, de uma forma ou outra, transitórios, pois de coisa alguma a fortuna nos permite a posse para sempre. 


 Séneca 
"Cartas a Lucílio"










  Grandes homens forjam-se a si próprios  


Para conhecer a realidade do mundo, único fim sério da ciência, é preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos bastardos, sem pai e sem padrinho. 
Os príncipes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sairam senão doentes e pedantes. 
Na sagração dos czares há uma cerimónia de alta significação simbólica: o imperador não se confirma enquanto por três vezes não haja descido do trono e penetrado sozinho na multidão, e isto quer dizer que na convivência do povo a autoridade e o valor dos monarcas recebe uma tão sagrada unção como a da santa crisma. Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta anos é que mandou chamar um mestre para aprender a ler. 
Veja Pedro o Grande, do qual a educação de câmara começou por fazer um poltrão. Aos quinze anos não se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu enfim sobre si mesmo pela sua única força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por aprender a manobrar, servindo como grumete. Para se fazer militar começou por tambor na célebre companhia dos jovens boiardos. E para reconstituir a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como oficial de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também não teve mestres, e foi consigo mesmo que ele aprendeu a lingua alemã e a lingua holandesa. 
Veja vossa alteza, enfim, todos aqueles que no 
governo dos homens tiveram uma acção eficaz, e reconhecerá se é na lição dos mestres ou se é no livre exercício da força e da vontade individual que se criam os carácteres verdadeiramente dominadores, como o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Inácio, como o de Lutero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de Washington, como o de Lincoln. 


 Ramalho Ortigão 
"As farpas (1883)"





















































TITO COLAÇO
X ___ VI ___ MMXIV





segunda-feira, 9 de junho de 2014

Faber est quisque tortunae suae...





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  Faber est quisque tortunae suae...  

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        Viver sempre perfeitamente feliz        

Viver sempre perfeitamente feliz. A nossa alma tem em si mesma esse poder de ficar indiferente perante as coisas indiferentes. 
Ficará indiferente se considerar cada uma delas analiticamente e em bloco, lembrando-se que nenhuma nos impõe opinião a seu respeito nem nos vem solicitar; os objectos estão aí imóveis e somos nós que formamos os nossos juízos sobre eles e os entalhamos, por dizê-lo assim, em nós mesmos, e está em nosso poder não os gravar e, se eles se insinuam nalgum cantinho da alma, apagá-los de repente.
Depois os cuidados que te pungem não duram, bem depressa deixará de viver. 
E por que tens um penoso sentimento de serem assim as coisas? 
Se são conformes à natureza aceita-as alegremente e sejam-te propícias. 
Se vão ao arrepio da natureza, busca o que for conforme à tua natureza, e corre nessa direcção, fosse-te ela menos propícia; merece indulgência quem procura o seu próprio bem. 


Marco Aurélio
"Pensamentos"









      O Homem é um mistério. Deve ser desvendado...     

A minha alma já não é susceptível aos seus impulsos violentos anteriores. 
Nela tudo é tão sossegado como no coração de um homem que esconde um segredo fundo.
Eu estou a aprender bastante acerca de "o que é o homem e o que é a vida", eu posso estudar carácteres humanos a partir de escritores com quem eu passei a maior parte da minha vida, livremente e com alegria.
Isto é tudo o que eu posso dizer sobre mim próprio. 
Tenho confiança em mim próprio. O homem é um mistério. Deve ser desvendado, e se tal levar uma vida inteira, não digas que é um desperdicio de tempo. Eu estou preocupado com este mistério porque eu quero ser um ser humano...


 Fiodor Dostoievski 
"Cartas seleccionadas"




















  Somos uma turba e ninguém  


Somos uma turba e ninguém: um ninguém que vive, porque é sangue e carne, e existe porque é esqueleto ou pedra, e uma turba da espectros que nos acompanha desde a Origem, e é a nossa mesma pessoa multiplicada em mil tendências incoerentes, forças contraditórias, em vários sentidos ignotos... 
E lá vamos, a tactear as trevas, ladeando, avançando, recuando, como pobres jumentos aflitos e às escuras, sob as esporas que o espicaçam para a frente e as rédeas que o puxam para trás.
Pobres jumentos aflitos e às escuras!
Escouceiam, orneiam, levantam a garupa. De que serve?
As patas ferem o ar e aquela voz de soluços, que faz rir, não chega ao céu. 

(...) 

Deus, criando as almas, condenou-as à suprema solidão. 
Algumas iludem a pena. 
Imaginam conviver com as árvores e os penedos. 
Falam às árvores e aos penedos, queixando-se dos seus desgostos. 

(...) 

Somos uma turba e ninguém. Somos Deus e o Demónio, o Céu e a Terra e outras letras grandes e Ninguém. 


 Teixeira de Pascoaes 
"O Pobre tolo"














   A sociedade é a imagem do Homem   


O aperfeiçoamento da Humanidade depende do aperfeiçoamento de cada um dos indivíduos que a formam.
Enquanto as partes não forem boas, o todo não pode ser bom.
Os homens, na sua maioria, são ainda maus e é, por isso, que a sociedade enferma de tantos males.
Não foi a sociedade que fez os homens, foram os homens que fizeram a sociedade. 
Quando os homens se tornarem bons, a sociedade tornar-se-á boa, sejam quais forem as bases políticas e económicas em que ela assente. Dizia um bispo francês que preferia um bom muçulmano a um mau cristão. Assim deve ser. As instituições aparecem com as virtudes ou com os defeitos dos homens que as representam. 



 Teixeira de Pascoaes 
"A saudade e o saudosismo"













































  TITO COLAÇO  
  IX ___VI ___ MMXIV