Absence of mind...
Krishnamurti.:
Quero descobrir, em vez de aceitar afirmações. Quero
descobrir se é mesmo possível
libertar-me da crueldade. Será possível livrar-me dela, sem repressão, sem
fugir, sem tentar forçar? O que é que posso fazer?
Interlocutor.:
A única coisa a fazer é expor essa crueldade.
K.: Para a expor,
tenho de a deixar revelar-se, aparecer, tenho de a deixar
mostrar-se – mas não no sentido de me
tornar mais cruel. Por que não a deixo revelar-se?
Antes de mais, tenho medo dela. Não
sei se ao deixá-la expor-se, não me tornarei mais cruel. E se eu a revelar,
serei capaz de a compreender?
Serei capaz de a olhar cuidadosamente,
ou seja, com muita atenção?
Só serei capaz, se a minha energia, o
meu interesse e urgência coincidirem no momento da exposição. Nesse momento,
tenho de sentir a urgência de a compreender, tenho de ter a mente sem qualquer
tipo de distorção. Tenho de ter enorme energia para olhar. E estas três coisas
têm de acontecer instantaneamente, no preciso momento da exposição da
crueldade. O que quer dizer que tenho de ser suficientemente sensível e livre
para ter essa energia vital, essa intensidade e atenção. De que modo terei essa
intensa atenção?
Como é que ela acontece?
I.: Se chegarmos a esse
ponto de querer compreender desesperadamente a crueldade, então teremos esta
atenção.
K.: Compreendo.
Só pergunto: “Será que é possível
estar atento?”
Espere, repare nas implicações disso,
veja o que está envolvido nisso. Não dê significados, não introduza novas
palavras. Vejamos. Não sei o que significa atenção. Provavelmente nunca dei
atenção ao que quer que fosse, porque quase toda a minha vida tenho sido
desatento. De repente, alguém aparece e diz: “Repare, esteja atento à
crueldade”; e eu digo: “Assim farei” – mas o que
quer isto dizer?
Como é que vou criar este estado de
atenção?
Haverá algum método?
Se houver, e eu puder treinar-me para
me tornar atento, isso levará tempo e, entretanto, vou continuando a estar
desatento; o que trará mais destruição. Portanto, tudo isso precisa de
acontecer instantaneamente!
Sou cruel. Não quero exercer
repressão, não quero fugir, o que não significa que estou determinado a não fugir,
ou que decidi não exercer repressão. Mas vejo e compreendo, com inteligência,
que a repressão, o controle, a fuga não resolvem o problema, portanto, eu ponho
tudo isso de lado. Assim, tenho essa inteligência, que surgiu ao compreender a
futilidade da repressão, da fuga, ou de tentar dominar isso. Com esta
inteligência vou examinar, vou olhar a crueldade. Percebo que, para a olhar,
tem de haver muita atenção, e que, para ter essa atenção, preciso de ter muito
cuidado relativamente à atenção. Portanto, a minha preocupação é reparar na desatenção.
O que quer isto dizer?
Se tentar praticar a atenção, isso
torna-se mecânico, pouco inteligente, e não tem sentido, mas se me tornar
atento, ou me der conta da falta de atenção, então começo a descobrir como
surge a atenção. Por que é que estou desatento aos sentimentos dos outros, ao
modo como eu falo, à minha maneira de comer, ao que as pessoas dizem e fazem?
Ao compreender o estado negativo,
chego ao estado positivo, que é a atenção.
Assim, estou a investigar, tentando
compreender como a desatenção desaparece.
Esta é uma questão muito séria porque
o mundo todo está a “arder”. Se eu faço parte deste mundo e este mundo sou eu,
tenho que extinguir o fogo.
Portanto, estamos intimamente ligados
a este problema. Porque é a falta de atenção que origina todo este caos em que
está o mundo.
Reparemos no curioso facto de que a
desatenção é negação – falta de atenção, ausência no momento certo. Como é
possível estar tão completamente consciente da desatenção, de forma a que isso
se transforme em atenção?
Como posso tornar-me, completa e
instantaneamente, consciente
da crueldade em mim, com grande
energia, para que não haja fricção nem contradição, de modo que a acção seja
completa, total?
Como posso fazer acontecer isso?
Dissemos que é possível apenas quando há atenção completa; e
esta não existe porque a nossa vida é
passada a desperdiçar energia na
desatenção.
Jiddu Krishnamurti
“O voo da águia”














