Páginas

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tempus vixit...






Tempus vixit...


  


__________
|Tempus vixit...|
| _______ |
|  _______  |
|   ________   |










Os acontecimentos são Homens. As circunstâncias são gente. Uma batalha, um jantar, um olhar, um beijo — cada uma destas coisas, porque é uma coisa, é um ente, uma pessoa de certa maneira de carne e osso.
Nós próprios, os homens, não passamos de acontecimentos, lentos relativamente a outros, compostos de células, e cada célula é um acontecimento entre os elementos que a compõem ...e, assim, até ao infinito interior.
Tudo é separado e tudo é uno. Todos os acontecimentos fundem-se no grande acontecimento chamado o Universo.
Nada existe , tudo acontece. É a Deus que acontece tudo.
O erro interior a todas as hipóteses de como é que o manifestado se abaixa até manifestar-se, ou então manifestando-se, não encontra maneira de se manifestar senão abaixando-se — esse erro é o de meter elementos morais num problema inteiramente metafísico.
O manifestado não se manifesta a si próprio, porque então não se manifestaria, certo que vendo-se a si próprio tal qual é, não se veria manifestado, mas sim objectivamente, na sua realidade absoluta.
Se se manifesta a outro ou outros, é que o manifestado não é tudo; há uma dualidade fundamental no universo. E o outro deve ser de qualquer modo análogo ao manifestado, para ele se poder manifestar.
Admitamos que, ao manifestar-se, o manifestado não se rebaixa ou abaixa. Como, normalmente no pensamento, a ideia de manifestar-se envolve a de se abaixar, é forçoso concluir, no caso posto, uma de duas coisas:
(1) A manifestação não inclui rebaixamento, nem mesmo metafísico (e o rebaixamento metafísico, por isso, é um critério normal aplicado a um caso puramente metafísico);
(2) Não há manifestação, propriamente falando: a manifestação é igual ao manifestado. O aparente é o real.






Fernando Pessoa

“Occultism or a Static Drame - Os acontecimentos são Homens”


































































Tantos milhares de anos passaram. Tanta evolução proclamada. Tanto sangue, guerras e impérios volvidos. Tanta miséria e riqueza criada.
E no entanto, ainda tanto por criar. Ou recriar.
Aquela capacidade nata e insistentemente destruída por aquilo a que chamam vulgarmente de inteligência, e de civilização.
Mas, a tal civilização, baseada nas diferenças fictícias, criação do homem.
Nas tais fronteiras físicas e psicológicas, raciais, culturais, religiosas, políticas e todas as que separam e dividem os homens. Criações do homem.
Supremacia de uns sobre outros, entre homens, sobre os animais e plantas, sobre tudo que coexiste neste planeta, num propenso "senhor do mundo".
Ser "dono" e "criador" de deuses, religiões, credos, nações, territórios, línguas, dialectos, economias, até dono de uma realidade também sua filha, a virtual.
Quantos milhares de anos mais faltarão, para a tão proclamada "evolução"?
Quanto sangue derramado, guerras e impérios físicos e virtuais serão criados, para continuar a divisão, e tornar distante a nata capacidade de ser ser-humano, de uma humanidade ainda nunca vivida?
Quantas perguntas destas ficarão por responder, prontamente afastadas pela vaidade, presunção, arrogância, por tudo o que mantém a cegueira do ego, pelo poder do imediato e materialista, do "eu" sobre o "outro"?
Será sempre um caminho individualista, solitário, mantido fora da esteira de um mundo globalmente justo, por ser impossível conciliar a visão de "um" perante um "todo", em que o bem para um será para todos, e o mal para um será o mal para todos, na dimensão real de uma humanidade.
A insignificância dada à vida é patente pela história vivida e contada pelos homens, repetida, recontada e revivida pelas novas gerações, por outros homens que caminham pelos mesmos caminhos erróneos, ou seja, pela falta de "Humanidade". Das continuadas divisões fictícias, criações do homem, para dividir a espécie humana e perpetuar um poder, a ambição, a cegueira do ego, prevalecer o "eu" sobre os "outros".
A tecnologia e os avanços da ciência não são usadas para estreitar esta visão egocêntrica, individualista, separatista entre os seres-humanos e restantes seres do planeta. Não fomenta a visão global do bem geral, para diluir as divisões criadas desde os primórdios, mantendo ainda assim o "eu" sobre os "outros", persistindo a miséria, a violência e o sofrimento dentro de si mesmo e entre os homens.
Nem os ganhos da noção já atingida pela capacidade tecnológica, da macro e nano-tecnologia, das belas imagens do espaço sideral, do nosso lindo planeta azul, da sensação de extrema pequenez e singela parte de um todo, nos faz dar as mãos e força para viver aquilo que nos torna únicos nessa imensidão de universos e talvez de outras humanidades.




TITO COLAÇO
22.02.2015


























He's pale with fear
This little boy
Cause night is coming on
This child's room will
Turn into a grave
To sacrifice his brain

His tiredness conquered him at last
So now he's fast asleep
Through all his dreams
He's waiting for
A sign of the deadly beast

He's sitting in the middle of
A hall with one red door
And listening to an unknown voice
With a friendly tempting call

Now face your fears
You must open the door
Come to the other side
Pluck up courage and face your fears

He has been cursed
Since he was young
This nightmare pesters him
So, as a man
It's still the same
He fears the same old dream

In all the years he never tried
To open the red door
Every night a senseless fight
The terror continues

He's sitting in the middle of
A hall with one red door
And listening to an unknown voice
With a friendly tempting call

Now face your fears
You must open the door
Come to the other side
Pluck up courage and face your fears

Then after an empty life
Old man's lying in his bed to die
The voice entreats him for the last time
And a doomed man has no more fear
He's opening the red door and then
The sun breaks through the clouds of pain
You better face your fears




Dreamscape
“Face your fears”



















Tito Colaço


XXII _ II  _ MMXV






















The power gleams inside...






















The power gleams inside...


















The power gleams inside...









The power gleams inside...












Something in me was born before the stars

And saw the sun begin from far away.

Our yellow, local day on its wont jars,

For it hath communed with an absolute day.



Through my Thought's night, as a worn robe's heard trail

That I have never seen, I drag this past

That saw the Possible like a dawn grow pale

On the lost night before it, mute and vast.



It dates remoter than God's birth can reach,

That had no birth but the world's coming after.

So the world's to me as, after whispered speech,

The cause-ignored sudden echoing of laughter.



That 't has a meaning my conjecture knows,

But that 't has meaning's all its meaning shows.








Fernando Pessoa

XXIV - “Something in me was born before the stars”

“35 Sonnets”
Poemas Ingleses 
















                                                   


A verdade acerca do mundo, disse ele, é que tudo é possível.
Não fosse o caso de vocês se terem habituado desde a nascença a ver tudo aquilo que vos rodeia, esvaziando assim as coisas da sua estranheza, e a realidade surgiria aos vossos olhos tal como é, um truque de magia num número de ilusionismo, um sonho febril, um transe povoado de quimeras sem analogia nem precedente imaginável, um carnaval itinerante, um espectáculo de feira migratório cujo derradeiro destino, depois de montar a tenda tantas e tantas vezes em tantos baldios enlameados, é tão indescritível e calamitoso que o espírito humano não consegue sequer concebê-lo.
O universo não é uma coisa limitada e a ordem que o rege não tem peias que, tolhendo-lhe os desígnios, a forcem a repetir noutro lugar qualquer o que já existe num dado lugar.
Mesmo neste mundo, existem mais coisas que escapam ao nosso conhecimento do que aquelas que conhecemos e a ordem que os nossos olhos vêem na criação é a ordem que nós lá pusemos, qual fio num labirinto, para não nos perdermos.
É que a existência tem a sua própria ordem e essa, nenhum espírito humano consegue abarcar, sendo esse espírito apenas mais um facto entre tantos outros.



(...)



Você aprendeu a desenhar vá-se lá saber onde e os seus desenhos parecem-se muito com as coisas, não haja dúvida.
Mas nenhum homem consegue pôr o mundo inteiro num livro.
Assim como um livro onde todas as coisas estivessem desenhadas não seria o mundo.
Muito bem, Marcus, respondeu o juiz.
Mas não me desenhe a mim, disse Webster. Porque eu não quero fazer parte do seu livro.
O meu livro ou outro livro qualquer, disse o juiz.
O que há-de vir não se desvia nem um bocadinho do livro onde está escrito. Como poderia desviar-se?
O livro seria falso, e um livro falso nem sequer merece tal nome.
Você fala por enigmas como ninguém e eu não vou terçar palavras consigo. Só lhe peço que não ponha a minha venerável carinha nesse seu caderno porque não me agrada que ande a mostrá-la por aí, se calhar a estranhos.
O juiz sorriu. Seja no meu livro ou não, cada homem habita em todos os outros e em troca alberga-os em si e assim por diante numa infindável complexidade de ser e testemunha até aos confins do mundo.






Cormac McCarthy
“Meridiano de sangue”









































When you were a child
We were balanced deep inside
Waiting for the change that brings you home again

Time is on our side
Run and hide, I'm still your guide
Awaiting your salvation and return

Now I'm free
To break the mirror
Another lie
My goal's becoming clearer

You're all the same
So who are you to blame me
The look in my eyes
The power gleams inside

Closing up my heart
Shutting out that soul which still believes
In my grace

Bleed for, weep for my desire
Die for my endless greed
Fear me, still I fear you more
You're locked and kept away

I'm led astray
I still don't care
Another sweet temptation
The look in my eyes
The power gleams inside
Shutting out that soul…


Bleed for, weep for my desire
Die for my endless greed
Fear me, still I fear you more
You're locked and kept away
I'm led astray



Dreamscape
“Led astray”

























































Tito Colaço



XXII _ II  _ MMXV