Páginas

sábado, 18 de junho de 2016

Right education...






"Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida e do irreal do sonho como do sentir a vida irreal.

Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho.

Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos."


Fernando Pessoa
"O rio da posse"






If the teacher takes a real interest in the child as an individual, the parents will have confidence in him. 

In this process, the teacher is educating the parents as well as himself, while learning from them in return. Right education is a mutual task demanding patience, consideration and affection. 

Enlightened teachers in an enlightened community could work out this problem of how to bring up children, and experiments along these lines should be made on a small scale by interested teachers and thoughtful parents.



You may be a sociologist, an anthropologist or a scientist, with your specialized mind working away at a fragment of the whole field of life. 

You are filled with knowledge and words, with capable explanations and rationalizations. 

And perhaps in the future the computer will be able to do all this infinitely better than you can. 

So education may have a different meaning altogether, not merely transferring what is printed on a page to your brain. 

Education may mean opening the doors of perception on to the vast movement of life. 
It may mean learning how to live happily, freely, without hate and confusion, but in beatitude. 

Modern education is blinding us; we learn to fight each other more and more, to compete, to struggle with each other. 

Right education is surely finding a different way of life, setting the mind free from its own conditioning. 

And perhaps then there can be love which in its action will bring about true relationship between man and man.


Jiddu Krishnamurti
"Education and significance of life"





Right education...






"É facto, senhor, que se fizeram experiências em Inglaterra e noutros países onde as escolas não tinham disciplina de espécie alguma; permitia-se às crianças fazer o que bem entendiam, sem serem nunca estorvadas. 


Essas escolas não ignoram, naturalmente, que as crianças necessitam de alguma espécie de disciplina, no sentido de orientação: não com rigorosos deveres e proibições, mas disciplina consistente em alguma espécie de advertência, sugestão ou alusão, afim de mostrar as dificuldades. Essa espécie de disciplina, que de facto é uma orientação, é necessária.


A dificuldade surge quando a disciplina consiste apenas em submeter a criança a um determinado padrão de acção, pela compulsão, pela intimidação. 

O carácter dessa criança, naturalmente, se deforma, a sua mente se perverte, por causa da disciplina, por causa dos muitos tabus e restrições que tem de observar; cresce, assim, a criança, como aconteceu com a maioria de nós, temeroso e com um sentimento de inferioridade. 


Quando a disciplina põe a criança à força num determinado molde, ela não pode, naturalmente, tomar-se inteligente mas, sim, um mero produto da disciplina; e como pode essa criança ser viva, criadora, e por conseguinte tomar-se um homem `integrado´, inteligente?


É mera máquina de funcionamento uniforme e eficiente, uma máquina sem inteligência humana.

Assim, a questão da disciplina constitui problema muito complexo, porquanto pensamos que sem disciplina na vida, cometeremos excessos e nos tornaremos excessivamente sensuais. É este o único problema com que de facto nos preocupamos: como não nos tornarmos excessivamente sensuais. 

Podeis ser desregrado em todos os outros sentidos, ambicionar posição, ser ganancioso, violento, enfim, fazer qualquer coisa, contanto que vos mantenhais dentro de certos limites, como em relação ao sexo. 
É muito estranho, não achais?

É muito estranho que nenhuma religião se oponha verdadeiramente à exploração, à ganância, à inveja, e todas se interessem pelo acto sexual, todas manifestem um zelo terrível em relação à moral sexual. 

É muito singular a grande preocupação das religiões organizadas em relação a essa moral, enquanto as outras coisas podem ter livre expansão. É fácil perceber porque as religiões organizadas põem o seu principal interesse na moralidade sexual. 

Não cuidam do problema da exploração, porque as religiões organizadas dependem da sociedade e dela vivem, e não ousam por isso atacar a raiz e a base dessa sociedade; por essa razão, preferem manobrar com a moral sexual.

Embora costumemos falar de disciplina, o que entendemos por esta palavra? Quando tendes uma classe de cem alunos, necessitareis de disciplina, de contrário será um caos completo. 

Mas se tivésseis cinco ou seis alunos em cada classe, com uma preceptora inteligente e de coração afectuoso, capaz de compreensão, estou certo de que não haveria necessidade de disciplina; ela haveria de compreender cada criança e ajudá-la pela maneira desejada.

A disciplina torna-se necessária nas escolas, quando há um mestre para cem alunos e alunas, aí não há dúvida nenhuma que é mister ser mais rigoroso. 
Mas essa disciplina nunca produzirá um ser humano inteligente.

E a maioria de nós é simpatizante dos movimentos em massa, das grandes escolas com milhares de alunos e alunas; não nos interessa a inteligência criadora e por isso erigimos escolas colossais, com frequências descomunais. Numa das universidades há, se não me engano, 45.000 estudantes. O que fazer, senhores, quando se tem de educar todos numa escola tão vasta?

Em tais circunstâncias, naturalmente, é imprescindível a disciplina. Não sou contrário à educação geral; seria estupidez minha dizer que o sou. 


Sou pela educação adequada, correcta, a que traz inteligência; e isso se realiza, não pela educação em massa, mas somente pelo dispensar a cada criança a necessária atenção, estudando-lhe as dificuldades, as idiossincrasias, tendências, capacidades, velando por ela com afeição, com inteligência. 

Só então há possibilidade de se criar uma nova sociedade.


Conta-se um caso curioso, facto autêntico, de um bispo que lia a Bíblia para os analfabetos dos mares do Sul, que ficavam encantados com as narrativas. 

Maravilhado com o facto, julgou que seria interessante voltar à América, angariar dinheiro e fundar escolas em todas as Ilhas dos Mares do Sul. Assim o fez: angariou muito dinheiro na América, voltou às ilhas e ensinou o povo a ler.
E o resultado foi que deram para ler publicações cómicas, o Saturday Evening Post, Look, e outras revistas excitantes e sugestivas!

É exactamente o que estamos a fazer! Outro facto extraordinário é que, quanto mais o povo lê, tanto menos rebeldia há. Senhores, já reflectistes sobre quanto veneramos a palavra impressa?

Se o governo emite uma ordem ou dá alguma comunicação, em letra de forma, aceitamo-la tal e qual, nunca a pomos em dúvida. A palavra impressa tornou-se sagrada. Quanto mais se ensina o povo, tanto menor a possibilidade de revolução, o que não significa que eu seja contrário a que se ensine o povo a ler. Mas cumpre perceber os perigos que isso implica. 

Os governos controlam o povo, dominam-lhe a mente e o coração por meio de astuta propaganda. Isso acontece não apenas nos países totalitários, mas no mundo inteiro. O jornal tomou o lugar do pensamento, os cabeçalhos tomaram o lugar da verdadeira cultura e compreensão.


A dificuldade, por conseguinte, é que na actual estrutura da sociedade, a disciplina se tornou um factor importante, porque desejamos educar um grande número de crianças ao mesmo tempo e o mais rapidamente possível. Educá-las para quê?


Para serem funcionários de bancos ou eficientes super-vendedores, capitalistas ou comissários. Quando uma pessoa é um super-homem de alguma espécie, um super-governador, ou um parlamentar muito subtil no debate, qual o seu mérito?


É provavelmente uma pessoa muito inteligente, recheada de factos. Ora, qualquer um pode acumular factos; mas nós somos entes humanos e não máquinas de juntar factos, autómatos objectos da rotina.


Mas, senhores, repito-o, vós não tendes interesse. Ouvis e sorris uns para os outros, e não fazeis coisa alguma no sentido de modificar radicalmente o sistema educativo; e, nessas condições, continuará a arrastar a sua existência até que venha uma revolução monstruosa, que será apenas outro substituto, com controle muito mais rigoroso, uma vez que os governos totalitários sabem muito bem moldar as mentes e os corações do povo, aprenderam o jeito de o fazer.


Essa é a desgraça, essa a nossa lamentável fraqueza: desejamos que outros façam as alterações, as reformas, desejamos que outros edifiquem por nós. 


Ouvimos e permanecemos inactivos; e quando a revolução logra êxito e outros indivíduos edificaram uma nova estrutura, e há todas as garantias, então nos solidarizamos.

Decerto, essa não é uma mentalidade inteligente, criadora: a nossa mente, em tal caso, só está em busca de segurança, sob forma diferente. O procurar segurança é um processo estúpido. 


Para vos sentirdes seguros, psicologicamente, precisais da disciplina, e a disciplina garante o resultado, por ela os entes humanos são convertidos em rotineiros ocupantes de cargos: funcionários de bancos, comissários, reis ou primeiros-ministros. 



Sem dúvida, esta é a mais alta expressão da estupidez, porque então assim os seres humanos são simples máquinas.


Vêde o perigo da disciplina: o perigo é que a disciplina torna-se mais importante do que o ente humano; o padrão de pensamento, o padrão de acção torna-se muito mais importante do que os indivíduos que a eles são ajustados. 


Continuará a existir a disciplina, inevitavelmente, enquanto o coração estiver vazio, porque ela é, então, um substituto da afeição.


Como somos em geral áridos, vazios, queremos disciplina. Um coração afectuoso, um ente humano rico, `integrado´, é livre, não tem discipliná.


A liberdade não vem por meio da disciplina, não precisamos submeter-nos a disciplina alguma, para sermos livres. 



A liberdade e a inteligência começam muito perto e não longe de nós; e esta é a razão por que, para chegarmos longe, precisamos começar inteligentemente, partindo de nós mesmos."




Jiddu Krishnamurti
"A arte da libertação"












t.





































quarta-feira, 8 de junho de 2016

Mechanically trained man...










One of the principal questions which one has to put to oneself is this: how far or to what depth can the mind penetrate into itself? 


That is the quality of seriousness because it implies awareness of the whole structure of one's own psychological being, with its urges, its compulsions, its desire to fulfill, and its frustrations, its miseries, strains and anxieties, its struggles, sorrows, and the innumerable problems that it has. 


The mind that perpetually has problems is not a serious mind at all, but the mind that understands each problem as it arises and dissolves it immediately so that it is not carried over to the next day such a mind is serious.


What are most of us interested in? If we have money, we turn to so-called spiritual things, or to intellectual amusements, or we discuss art, or take up painting to express ourselves. 


If we have no money, our time is taken up day after day with earning it, and we are caught in that misery, in the endless routine and boredom of it. 


Most of us are trained to function mechanically in some job, year in and year out. 


We have responsibilities, a wife and children to provide for, and caught up in this mad world we try to be serious, we try to become religious; 


we go to church, we join this religious organization or that or perhaps we hear about these meetings and because we have holidays we turn up here. 


But none of that will bring about this extraordinary transformation of the mind.





Mechanically
trained man...





"Fico a pensar por que estão todos aqui. Por que nos reunimos todos aqui às margens do Ganges? Se alguém fizesse esta pergunta seriamente, qual seria a resposta? 


É simplesmente porque antes os senhores já ouviram este homem falar várias vezes; portanto, dizem, vamos lá ouvi-lo? 


Qual é a relação do que ele diz com o que os senhores fazem? 
São duas coisas separadas? 


Os senhores apenas ouvem o que ele tem a dizer e continuam com as suas vidas de todos os dias? Entenderam a nossa questão?


Nós, como velhos amigos, sentados debaixo de uma árvore, vamos discutir, juntos, não alguns problemas abstractos, teóricos, mas a nossa vida diária, que é muito mais importante. 


Temos tantos problemas: como meditar, que guru seguir, se for um seguidor, que tipo de prática, lazer, a que tipo de actividade diária se dedicar e assim por diante.



E também, o que é o nosso relacionamento com a natureza, com todas as árvores, os rios, as montanhas, as planícies, os vales? O que é o nosso relacionamento com uma flor, com um pássaro? 



E o que é o nosso relacionamento um com o outro, não com o orador, mas um com o outro, com a sua esposa, com o seu marido, com os seus filhos, com o ambiente, com o seu vizinho, com a sua comunidade, com o governo, e assim por diante. 
O que é o nosso relacionamento com tudo isso? 

Ou estamos isolados, preocupados com nós mesmos, intensamente interessados no nosso próprio modo de vida?
















Estamos a fazer estas perguntas como amigos de verdade, não como guru. O orador não tem a mínima intenção de impressioná-los, de lhes dizer o que fazer ou de ajudá-los. Por favor, tenham isso em mente durante todas as palestras. Ele não tem intenção nenhuma de ajudá-los. Vou-lhes dizer por quê, vou lhes dizer a razão, a lógica disso. 



Os senhores tiveram muitos gurus, milhares deles, muita gente para ajudar, cristãos, hindus, budistas, todo o tipo de líder, não apenas políticos, mas os assim chamados religiosos. Os senhores tiveram grandes líderes e pequenos líderes. E onde estão os senhores ao fim desta longa evolução?



Possivelmente, vivemos nesta terra há um milhão de anos, e durante essa longa evolução continuamos bárbaros. Podemos ser mais limpos, mais rápidos na comunicação, ter mais higiene, melhores transportes e assim por diante, mas moralmente, eticamente e se me permitem usar a palavra espiritualmente ainda somos bárbaros. 



Matamos uns aos outros, não apenas na guerra, mas também por palavras, por gestos. Somos muito competitivos. Somos muito ambiciosos. Cada um está preocupado consigo mesmo. 

O interesse pessoal é a nota dominante da nossa vida, preocupação com o nosso próprio bem-estar, com a nossa segurança, com as nossas posses, com o poder, e assim por diante.



Não estamos preocupados com nós mesmos, espiritualmente, religiosamente, nos negócios? 


Na verdade, no mundo inteiro, todos estamos preocupados com nós mesmos. Isto significa nos isolarmos do resto da humanidade. Isto é um facto; não estamos a exagerar. Não estamos a dizer algo que não seja verdade.













Onde quer que se vá, e este orador percorreu o mundo todo e ainda viaja, o que está a acontecer? Aumenta o número de armamentos, a violência, o fanatismo, e o grande e profundo sentimento de insegurança, de incerteza e separação, vocês e eu, é uma característica comum da humanidade. 



Por favor, estamos a encarar os factos, não teorias, não algum tipo de afirmação teórica, filosófica, distante, estamos a olhar para os factos. Não para os meus factos em oposição aos seus, mas factos. Todos os países do mundo, como devem saber, adquirem armas, todos os países, sejam pobres, sejam ricos. Certo?



Olhem para o vosso próprio país, a imensa pobreza, a desordem, a corrupção, todos os senhores sabem disso, e a compra de armas. 

Costumava ser uma moca para matar o outro; agora pode-se vaporizar a humanidade aos milhões com uma bomba atómica ou uma bomba de neutrons. 


Uma imensa revolução está a ocorrer, da qual sabemos muito pouco. O processo tecnológico é tão rápido que da noite para o dia aparece uma coisa nova. Mas, eticamente, somos o que temos sido durante um milhão de anos. Os senhores percebem o contraste?



Tecnologicamente, temos o computador, que pode sobrepor o homem, que pode inventar novas meditações, novos deuses, novas teorias. E, meus amigos, isto é, os senhores e eu, o que vai acontecer com os nossos cérebros? 


O computador pode fazer quase tudo o que os seres humanos conseguem fazer, excepto, claro, fazer amor ou olhar para a lua nova. Isto não é uma teoria; está a acontecer agora. Portanto, o que vai acontecer connosco enquanto seres humanos?


Queremos entretenimento. Provavelmente, isso faz parte da ideia que fazem de entretenimento, vir aqui, sentar, ouvir e concordar ou discordar, e voltar para casa e continuar com as suas vidas; é uma espécie de entretenimento, como ir à igreja, ao templo, à mesquita, ao futebol ou ao cricket.
Por favor, isto não é um entretenimento. 


Os senhores e eu, o orador, devemos pensar juntos, e não apenas sentar calmamente e absorver uma estranha atmosfera, uma `punya´; desculpem-me, não é nada disso.



Vamos pensar juntos, sensatamente, logicamente, olhar para a mesma coisa juntos. Não como os senhores olham, ou como eu olho, mas juntos observar a nossa vida diária, que é bem mais importante do que qualquer outra coisa, observar a cada minuto do nosso dia. 



Então, primeiramente, vamos pensar juntos, não apenas ouvir, concordar ou discordar, o que é muito fácil. Desejamos fervorosamente que pudessem pôr de lado a concordância e a discordância! Isto é muito difícil para a maioria das pessoas que estão ansiosas demais para concordar ou discordar. 



As nossas reacções são tão rápidas; nós classificamos tudo, homem religioso, homem não-religioso, mundano, e assim por diante. 

Portanto, se puderem, nesta manhã pelo menos, ponham de lado a concordância e a discordância, e apenas observem juntos, pensem juntos. Farão isso? 

Deixem completamente de lado a sua opinião e a minha opinião, o seu modo de pensar e o modo de pensar da outra pessoa, e apenas observem juntos, pensem juntos.



A concordância e a discordância dividem as pessoas. É ilógico dizer `sim, eu concordo consigo´, ou `eu não concordo consigo´, porque os senhores estão ou a projectar, agarrando-se à sua opinião, ao seu julgamento, à sua avaliação, ou a descartar o que foi dito.


Então, nesta manhã, só por diversão, por entretenimento, se preferem, vamos esquecer as nossas opiniões, os nossos julgamentos, as nossas concordâncias ou discordâncias e deixar o cérebro verdadeiramente limpo, não de forma devocional, emocional ou romântica, mas um cérebro que não se envolva em todas as complicações de teoria, opinião, aceitação, dissensão. Podemos fazê-lo?


Então, vamos prosseguir. O que é o pensamento? Todo o ser humano no mundo, do mais ignorante, do mais rude, da pessoa mais humilde de uma pequena vila, ao mais altamente sofisticado cientista, tem algo em comum: o pensamento.


Todos nós pensamos, o aldeão que nunca leu nada, que nunca foi à escola, à faculdade ou à universidade, e a maioria dos senhores aqui, que estudaram. O homem que senta sozinho lá no Himalaia, ele também pensa. E este pensamento persiste desde o começo. 



Então, primeiro, os senhores devem fazer a pergunta: o que é o pensamento? O que é isso sobre o que os senhores pensam? Primeiro, respondam a essa pergunta, não a partir dos livros, do Gita, ou dos Upanishads, ou da Bíblia, ou do Corão.






O que é o pensamento? Nós vivemos pelo pensamento. A nossa acção diária é baseada no pensamento. O senhor pode pensar de um jeito, e ele pode pensar de outro jeito, mas ainda é pensamento. Então, o que é? 


Pode-se pensar se não se tem memória? Os senhores podem pensar no passado e no futuro, o que farão amanhã ou na próxima hora, ou o que fizeram ontem ou nesta manhã? O que no mundo tecnológico do computador chama-se arquitectura.



Então, temos de descobrir, juntos, não o modo de pensar dos indianos ou dos europeus, ou o modo particular de pensar do budista, do hindu, do muçulmano, do cristão, ou de qualquer outra seita, mas o que é o pensamento. 



A não ser que realmente entendamos o processo do pensamento, a nossa vida sempre será muito limitada. Assim, temos de examinar muito profundamente, muito seriamente, todo o processo do pensamento que modela a nossa vida.



O homem criou deus pelo seu pensamento; esse deus não criou o homem. Deve ter sido um deus muito medíocre que criou estes seres humanos que estão a lutar uns com os outros, perpetuamente. Portanto, o que é o pensamento e por que temos criado problemas com ele?




Por que temos problemas? Temos uma porção deles, problemas políticos, problemas financeiros, problemas económicos, os problemas de uma religião contra a outra, problemas aos milhares.















O que é um problema e qual o significado da palavra problema? Segundo o dicionário, significa algo repentinamente lançado em alguém, um desafio, algo que se tem de olhar de frente, que se tem de encarar. Não se pode evitá-lo, não se pode fugir dele, não se pode eliminá-lo; ele está lá, como um dedo dolorido.



Por que durante toda a nossa vida, desde o momento em que nascemos até à morte, temos problemas, com a morte, com o medo, com centenas de coisas?




Os senhores estão a fazer esta pergunta, ou eu a estou a fazer para os senhores? Desde o momento em que nascem, os senhores têm problemas. 


Vão para a escola lá, têm de ler, de escrever, e isso torna-se um problema para a criança. Um pouco mais tarde, ela tem que aprender matemática, e isto torna-se um problema. 
E a mãe diz, `faça isto, não faça aquilo´, e isso torna-se um problema.



Assim, desde a infância, somos educados com problemas, o nosso cérebro é condicionado com problemas; ele nunca está livre de problemas. 



Quando os senhores crescem, tornam-se adolescentes, fazem amor, aprender a ganhar dinheiro, a seguir ou não a sociedade, tudo isso torna-se um problema. E no fim os senhores se submetem à sociedade, ao ambiente. 



Todo o político do mundo resolve um problema, e assim, cria outros problemas. Já notaram isso? 

O próprio cérebro humano, que fica dentro da cabeça, tem problemas. Então, pode ele libertar-se de problemas para resolver problemas? 

Compreendem a minha pergunta?




Se o cérebro não está livre de problemas, como pode resolver qualquer problema? Isto é lógico. Certo? 




Portanto, o cérebro, que carrega a memória, que adquiriu um tremendo conhecimento industrial, tem sido alimentado, educado, para ter problemas. 



Agora estamos a perguntar se esse cérebro, primeiro, pode libertar-se dos problemas, de modo a poder resolvê-los. 
Os senhores podem primeiro libertar-se dos problemas? 
Ou isso é impossível?


O nosso cérebro está condicionado pela estreiteza de várias religiões; pela especialização, pelo ambiente em que vivemos, pela nossa formação, pela pobreza ou pela riqueza, pelos votos que os senhores fizeram como monges. Não sei por quê, mas os senhores fizeram os votos e eles tornam-se uma tortura, um problema.



Portanto, os nossos cérebros estão extraordinariamente condicionados como homens de negócios, como donas de casa, e assim por diante. E desse estreito ponto de vista olhamos para o mundo.




Logo, temos de discutir a questão não apenas de ter problemas, mas também do que é o pensamento. Por que pensamos? Há um modo diferente de acção? Há um modo diferente de abordar a vida, de viver o dia-a-dia, que em absoluto não requeira pensamento?














Primeiramente, teremos de olhar muito de perto, juntos; descobrir por nós mesmos e então agir. Portanto, vamos discuti-lo. O que é o pensamento? 


Se os senhores não pensassem, não estariam aqui. Os senhores tomaram providências para vir aqui, em determinada hora, e também o fizeram para voltar. Isto é pensamento.


O que é o pensamento, filosoficamente? Filosoficamente, significa o amor à verdade, o amor à vida, e não passar num exame na universidade. Portanto, vamos descobrir, juntos, o que é o pensamento.


Se os senhores não tivessem nenhuma memória sobre o ontem, absolutamente nenhuma, os senhores pensariam? Claro que não, não podem pensar se não têm memória, certo? Então, o que é a memória? 


Os senhores fizeram alguma coisa ontem, e isso está registado no cérebro, e de acordo com essa memória, os senhores pensam e agem. Os senhores lembram-se de alguém que os tenha elogiado, de alguém que os tenha ferido, disse coisas feias. Isto é, a memória é a consequência do conhecimento. 
E o que é o conhecimento?



Isso é um tanto difícil. Todos nós acumulamos conhecimento; os grandes eruditos, os grandes professores, cientistas adquirem um tremendo conhecimento. Então, o que é o conhecimento?
Como o conhecimento opera? 
O conhecimento vem quando há experiência. 



Alguém sofre um acidente de automóvel, isto torna-se uma experiência. Dessa experiência nasce o conhecimento. E deste conhecimento vem a memória. Da memória vem o pensamento. Certo?


Então, o que é a experiência? É aquele incidente, o acidente com o carro, que é registado no cérebro como conhecimento. 



Experiência, conhecimento, memória, pensamento: isto é lógico, não é o meu modo de encará-lo ou o dos senhores encará-lo.

















Portanto, toda a experiência, seja a experiência de deus ou a sua, é limitada. Os cientistas a aumentam a cada dia, e o que pode ser aumentado é sempre limitado, certo?


Eu sei pouco, e tenho de saber mais, o senhor está a acrescentar. A experiência de algo é sempre limitada e há algo mais a ser acrescentado. 


Logo, a experiência é limitada, o conhecimento é limitado, para sempre. Por conseguinte, a memória é limitada, e o pensamento é limitado, certo?




E onde há limitação, há divisão, como os sikhs, os hindus, os budistas, os muçulmanos, os cristãos, o democrata, o republicano, o comunista. 

Todos eles baseiam-se no pensamento e, portanto, todos os governos são limitados, toda a actividade dos senhores é limitada. Seja a pensar da forma mais abstracta ou a tentar ser muito nobre, ainda é pensamento, certo?



Assim, dessa qualidade limitada do pensamento, pois este é sempre limitado, as nossas acções são limitadas. 


Agora, os senhores começam a indagar com todo o cuidado: o pensamento pode ter o seu justo lugar e nenhum outro? Entendem a minha pergunta? 
Há alguma acção que esteja livre da limitação?



Isto é, sendo o pensamento limitado, nós reduzimos todo o universo a uma coisa muito pequena. 

Transformamos a nossa vida nessa coisa pequena, como o pensamento: devo ser isto, não devo ser aquilo, devo ter poder. Estão a acompanhar? 

Nós reduzimos a imensa qualidade da vida a uma coisa pequena e insignificante.













Então, é possível ficar livre do pensamento? 
O que significa, tenho de pensar para vir aqui; se sou um burocrata, tenho de pensar em termos de burocracia; se vou para a fábrica e aperto parafusos, devo ter um certo conhecimento para isso. Por que eu deveria ter conhecimento sobre mim mesmo?



Sobre o eu superior, sobre o eu inferior e tudo mais? Por que devo ter conhecimento sobre isso? É muito simples, é o interesse pessoal; na verdade, só estou preocupado comigo mesmo. 




Podemos fingir que há espírito fraterno, podemos falar sobre a paz, jogar com as palavras, mas somos sempre egocêntricos. 

Assim, surge daí a pergunta: com esse egocentrismo, que é na essência um profundo egoísmo, pode haver alguma mudança efectiva? Podemos ser totalmente altruístas? Então, temos de indagar: o que é o ego?



O que são os senhores, independentemente do nome e da profissão, dos seus votos, de seguir algum guru? O que são os senhores? 

Ou me expressarei de outro modo, os senhores são o seu nome, a sua profissão; os senhores fazem parte da comunidade, fazem parte da tradição? 
Não repitam o que diz o Gita, os Upanishads ou seja lá quem for; isso é inútil.


O que os senhores são, na realidade? Esta é a primeira vez que esta pergunta é feita aos senhores o que os senhores são? Os senhores são o seu medo, o seu nome, o seu corpo? 

Os senhores não são o que pensam que são, a imagem que construíram de si mesmos? Os senhores não são tudo isso? Não são a sua raiva? Ou a raiva está separada dos senhores?



Vamos lá, senhores, os senhores não são os vossos medos, as vossas ambições, a vossa ganância, a vossa competição, a vossa insegurança, a vossa confusão, a vossa dor, o vosso pesar, não são tudo isso? 

Não são o guru que seguem? Então, não são tudo isso com que se identificam? Ou são algo mais elevado, o super-ego, a super-consciência?












Se os senhores dizem que têm uma super-consciência, um eu superior, isto também faz parte do pensamento; portanto, aquilo que é chamado de pensamento superior, de eu superior, ainda é muito pequeno.



Então, o que os senhores são? Eu digo que os senhores são um feixe de tudo aquilo que é associado pelo pensamento. 
O que quer que os senhores pensam, isso os senhores são. 

Pode-se inventar todo o tipo de coisa, mas essa invenção também é o que o homem é. Certo?




Juntando tudo, isso chama-se eu, o meu ego, a minha personalidade, o meu eu superior, o meu deus. E eu invento todo esse tipo de coisas. 

Quem juntou tudo isso? Ou há uma só estrutura? Quem dividiu tudo isso? Quem disse que sou hindu ou muçulmano? Isso é uma propaganda? 

Quem criou a divisão entre os países? 

O pensamento? Ou foi o desejo, a aspiração de ser identificado, de estar seguro?















Estou a perguntar respeitosamente, quem criou a divisão? Foi o pensamento? 
É claro, mas por trás do pensamento há algo mais. Quem está a fazer tudo isso, salvo o pensamento? 




O que é o desejo, o que é o anseio, o que é o movimento que há por trás disso? É a segurança, não é? 

Eu quero estar seguro; é por isso que sigo um guru. Quero estar seguro no meu relacionamento com os senhores, com a minha mulher ela é a minha mulher, segura, protegida, a salvo. O desejo, o anseio, a resposta, a reacção, é por segurança, eu tenho de estar seguro, a salvo.



Todos nós queremos segurança, mas nunca nos perguntamos, existe alguma segurança? 

Existe algum lugar em que eu possa dizer que estou a salvo? 



O senhor desconfia da sua mulher, a sua mulher desconfia do senhor. O senhor desconfia do seu patrão porque quer o lugar dele. É tudo muito sensato. Podem achar graça agora, mas cada ser humano quer ter um lugar onde possa estar a salvo, seguro, onde não haja competição, onde não seja maltratado, importunado. 


Os senhores não querem tudo isso? Mas nunca perguntam: existe alguma segurança? Se a querem, devem também fazer a pergunta: existe alguma segurança?



Então, surge a questão: por que os senhores querem segurança? Há segurança nos vossos pensamentos? 














Há segurança nos vossos relacionamentos, com a mulher e com os filhos? Há segurança no emprego? O senhor pode ser um professor, cuidadosamente protegido, mas há professores mais qualificados; então, o senhor quer tornar-se o vice-chanceler. Onde está a segurança? 


Pode não haver nenhuma segurança, em absoluto. Pensem nisso, senhores, vejam que beleza, não ter nenhum desejo de segurança, nenhum anseio, nenhum sentimento, de qualquer tipo, em que haja segurança. No lar, no escritório, na fábrica, no parlamento, e assim por diante, há segurança? 



Talvez a vida não tenha segurança; a vida foi feita para ser vivida, não para criar problemas e depois tentar resolvê-los. É para ser vivida e acabar. Este é um dos nossos medos, morrer, não é?

















Portanto, nesta manhã, aprendemos um com o outro, e não ajudamos um ao outro, aprendemos, ouvimos de verdade o que o orador está a dizer? 


Os senhores ouviram com os ouvidos, viram os factos do mundo que são os senhores, pois o mundo são os senhores? Ou tudo são ideias? Há uma diferença entre facto e ideia; a ideia nunca é o facto. 


A palavra `microfone´ não é o microfone, este objecto que está na frente do orador. Mas fizemos da palavra o objecto. Portanto, os hindus não são os senhores, a palavra não são os senhores. 
Os senhores são o facto, não a palavra. Então, podemos ver a palavra, ver que ela não é o objecto? A palavra `deus´ não é deus. A palavra é totalmente diferente da realidade.



Assim, perguntamos o mais respeitosamente possível: o que aprenderam nesta manhã, o que realmente aprenderam, de que modo que agirão, e não apenas dirão sim, certo, e irão para casa, e continuarão como antes.




O mundo está num grande caos. Não sei se o percebem; há muitas dificuldades no mundo, muita miséria. Os senhores estão confusos, portanto, estão a criar tudo isso no mundo que os cerca. 




Se não alterarem a si próprios, o mundo não pode alterar-se, não pode mudar. Porque, no mundo, aonde quer que se vá, cada ser humano passa pelo mesmo fenómeno pelo qual os senhores estão a passar, incerteza, infelicidade, medo, insegurança, desejo de segurança, de controle, o seu guru é melhor do que o meu, e assim por diante. Entendem?

















O orador não é um optimista nem um pessimista. Estamos a apresentar os factos, não os factos do jornal. Estamos a conversar sobre as nossas vidas, não a vida de um guru, ou de um imperador, ou de alguma outra pessoa. Estamos a falar, juntos, sobre as nossas vidas. Elas são como as do resto do mundo. 



Os seres humanos são tremendamente infelizes, inseguros, desditosos, desempregados aos milhões, submetidos à pobreza, à fome, ao sofrimento, à dor, assim como os senhores; os senhores não são diferentes deles.


















Podem chamar-se de hindus ou muçulmanos, ou de cristãos, ou do que quiserem, mas, conscientemente, lá dentro, são como o resto do mundo. 




Os senhores podem ser morenos escuros, eles podem ser morenos claros, ter um governo diferente, mas todo o ser humano partilha deste mundo terrível. 

Nós fizemos o mundo, compreendem? 














Nós somos a sociedade. Se querem que a sociedade seja algo diferente, os senhores têm de começar, têm de pôr as suas casas em ordem, as casas que são os senhores."





Jiddu Krishnamurti
"O futuro é agora"









































t.