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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Ode









































        Ode        


 Eis-me nu e singelo!  
 
Areia branca e o meu corpo em cima.  
 
Um puro homem, natural e belo,  
 
De carne que não peca e que não rima.  

 
A linha do horizonte é um nível quieto;  
 
As velas, de cansaço, adormeceram;  
 
E penas brancas, que eram luto preto,  
 
Perderam-se no azul de onde vieram.  

   
Sol e frescura em toda a grande praia  
   
Onde não pode haver agricultura;  
   
Esterilidade limpa, que não caia  
   
De pão e vinho a cósmica fartura.  

   
Dançam toninhas lúdicas no céu  
   
Que visitam ligeiras e felizes;  
   
Uma força sonâmbula as ergueu,  
   
Mas seguras à seiva das raízes.  

     
Nem paz, nem guerra, nem desarmonia;  
     
O sexo alegre, mas a repousar;  
     
Um pleno, largo e caudaloso dia,  
     
Sem horas e minutos a passar.  

     
Vem até mim, onda que trazes vida!  
     
Soro da redenção!  
     
Vem como o sangue doutra mãe pedida  
     
Na hora de dar mundo ao coração!  


 Miguel Torga 
  'Diário (1946)' 























 TITO COLAÇO 
 19.06.2013 














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