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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Nemo consilio obligatur...















  Nemo consilio obligatur...  















    
Não somos 
capazes de 
distinguir o que 
é bom e o 
que é mau.
    


   Quantas vezes um pretenso desastre não foi a causa inicial de uma grande felicidade! 
Quantas vezes, também, uma conjuntura saudada com entusiasmo não constituiu apenas um passo em direcção ao abismo, elevando um pouco mais ainda alguém em posição eminente, como se em tal posição pudesse estar certo de cair dela sem risco! 
A própria queda, aliás, não tem em si mesma nada de mal, se tomares em consideração o limite para lá do qual a natureza não pode precipitar ninguém. 
Está bem perto de nós o termo de tudo quanto há, está bem perto, garanto-te, o limite desta existência donde o venturoso se julga expulso e o desgraçado liberto, nós é que, ou por esperanças ou por receios desmesurados, a fazemos mais extensa do que realmente é. 
Se agires com sabedoria, medirás tudo em função da condição humana, e assim limitarás o espaço tanto das alegrias como dos receios. Vale bem a pena privarmo-nos de duradouras alegrias a troco de não sentirmos duradouros receios!
Por que motivo procuro eu restringir este mal que é o medo? 
É que não há razão válida para temeres o que quer que seja, nós, isso sim, deixamo-nos abalar e atormentar apenas por vãs aparências. Nunca ninguém analisou o que há de verdade no que nos aflige, mas cada um vai incutindo medo nos outros, nunca ninguém se atreveu a aproximar-se do que lhe perturba o espírito e a averiguar a natureza real e fundamentada do seu medo. Daqui resulta o crédito que se dá a um perigo inexistente, que mantém a sua aparência porque ninguém o contesta a sério. 
Basta que nos decidamos a abrir bem os olhos para verificarmos como é diminuto, incerto e inofensivo aquilo que receamos. 
A confusão dos nossos espíritos corresponde perfeitamente à descrição de Lucrécio: "tal como as crianças no meio da escuridão, tremem com medo de tudo, assim nós tememos em plena luz!"
Pois bem, não seremos nós mais insensatos do que as crianças, nós que tememos em plena luz? 
A verdade, porém, Lucrécio, é que nós não tememos em plena luz, criamos, sim, trevas a toda a nossa volta! 
Não somos capazes de distinguir o que é bom e o que é mau, passamos toda a vida a correr, a tropeçar às cegas, e nem por isso somos capazes de parar ou de tomar atenção onde pomos os pés. Estás a imaginar como é coisa de loucos andar a correr no escuro! Valham-me os deuses! Não conseguimos mais nada, senão termos de regressar de mais longe, sem saber para onde nos dirigimos, continuamos teimosamente a caminhar para onde o instinto nos leva. 
No entanto, se o quisermos, poderá fazer-se luz em nós. De um único modo: adquirirmos o conhecimento das coisas divinas e humanas, um conhecimento interiorizado, e não meramente superficial; meditarmos nessas ideias já adquiridas, comprovarmos a sua validade pela nossa própria experiência; investigarmos o que é bom e o que é mau, e a que coisas se atribui falsamente um ou outro destes adjectivos; averiguarmos em que consiste o bem e o mal éticos, e, finalmente, o que é a providência.   



   Séneca   


   “Cartas a Lucílio”   

















































   O medo é parte do pensamento, aquele que veda ao que tanto anseia viver, da liberdade que tanto sonhou, mas que não consegue atingir, por exactamente esse medo ser o que impede ver, e de sentir realmente livre.
Para além do instinto animal, de sobrevivência, que em tempos foi alarme usado para se inserir em habitat desvantajoso, de enorme e bem sucedida utilidade, esse medo, tornou-se a partir de certa medida, aquando da prevalência como espécie sobre as do mundo animal, impeditiva de poder alcançar a ferramenta natural da inteligência.
A inteligência, não a do pensamento astuto, mas a criadora, aquela onde o mundo do pensamento e criações humanas, não tem acesso.
Assim, a permanência do medo, afasta qualquer hipótese de a humanidade, de se investigar interiormente, e poder ver a sua própria essência.
Essa natureza posta em causa, por tudo o que criou na sua realidade do mundo exterior, é dada como não existente, ou fruto da imaginação romanceada de tresloucados, que ousam apontar essa condição humana, onde todo o condicionalismo imposto por si próprio, nas sociedades criadas, tenta a todo o custo, manter fora do alcance da sua normalidade, efectivando a continuação de todo o sofrimento causado nesse plano, pela divisão continuada, perpetuando-se a ausência do Amor, não desse a que chamam amor entre homem-mulher, não desse em que nome do amor a Deus ou Deuses, ou de nações, ou outros credos, mas daquele em que se olhando encontra-se a si mesmo, como um Todo.
Por isso, essa humanidade que tem dominado, como se dividindo entre si, intende continuar a inutilizar, menorizando, ridicularizando os vernáculos ditos e indicados por alguns homens sem medo, do tal medo, que têm vindo em seu encontro, logo, em nosso encontro, servindo-se como nossos próprios espelhos. 



   TITO COLAÇO   
   25 - 09 - 2014   
















 TITO COLAÇO 

 XXV ___ IX ___ MMXIV 









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