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segunda-feira, 14 de março de 2016

The basic nature of man...











"He had also learned that the sick and unfortunate are far more receptive to traditional magic spells and exorcisms than to sensible advice; that people more readily accept affliction and outward penances than the task of changing themselves, or even examining themselves; that they believe more easily in magic than reason, in formulas than experience... 

They would much rather pay in money and goods than in trust and love. They cheat one another and expect to be cheated themselves. You had to learn to see man as a weak, selfish, and cowardly creature; you also had to realize how many of these evil traits and impulses you shared yourself..."


Hermann Hesse
"The glass bead game"











The basic 
nature
of man...





"All outward forms of change brought about by wars, revolutions, reformations, laws and ideologies have failed completely to change the basic nature of man and therefore of society. 

As human beings living in this monstrously ugly world, let us ask ourselves, can this society, based on competition, brutality and fear, come to an end? 

Not as an intellectual conception, not as a hope, but as an actual fact, so that the mind is made fresh, new and innocent and can bring about a different world altogether? 

It can only happen, I think, if each one of us recognises the central fact that we, as individuals, as human beings, in whatever part of the world we happen to live or whatever culture we happen to belong to, are totally responsible for the whole state of the world."


Jiddu Krishnamurti
"Freedom from the Known"












"Através dos tempos vem o homem em busca de uma certa coisa além de si próprio, além do bem-estar material, uma coisa que se pode chamar verdade, Deus ou realidade, um estado atemporal, algo que não possa ser perturbado pelas circunstâncias, pelo pensamento ou pela corrupção humana.

O homem sempre indagou: Qual a finalidade de tudo isto? Tem a vida alguma significação? Vendo a enorme confusão reinante na vida, as brutalidades, as revoltas, as guerras, as intermináveis divisões da religião, da ideologia, da nacionalidade, pergunta o homem, com um profundo sentimento de frustração, o que se deve fazer, o que é isso que se chama viver e se alguma coisa existe além dos seus limites.

E, não podendo encontrar essa coisa sem nome e de mil nomes que sempre buscou, o homem cultivou a fé, fé num salvador ou num ideal, a fé que invariavelmente gera a violência.
Nesta batalha constante que chamamos `viver´, procuramos estabelecer um código de conduta, conforme a sociedade em que somos criados, quer seja uma sociedade comunista, quer uma pretensa sociedade livre; aceitamos um padrão de comportamento como parte da nossa tradição hindu, muçulmana, cristã ou outra. 

Esperamos que alguém nos diga o que é conduta justa ou injusta, pensamento correcto ou incorrecto, e pela observância desse padrão, a nossa conduta e o nosso pensar se tornam mecânicos, as nossas reacções automáticas. Pode-se observar isso muito facilmente em nós mesmos.

Durante séculos fomos amparados pelos nossos instrutores, as nossas autoridades, os nossos livros, os nossos santos. Pedimos: `Dizei-me tudo; mostrai-me o que existe além dos montes, das montanhas e da Terra´, e satisfazemo-nos com as suas descrições, quer dizer, vivemos de palavras, e as nossas vidas são superficiais e vazias. Não somos originais. Temos vivido das coisas que nos têm dito, ou guiados pelas nossas inclinações, as nossas tendências, ou impelidos a aceitar pelas circunstâncias e o ambiente. Somos o resultado de toda espécie de influências e em nós nada existe de novo, nada descoberto por nós mesmos, nada original, inédito, claro.

Consoante a história teológica garantem-nos os guias religiosos que, se observarmos determinados rituais, recitarmos certas preces e versos sagrados, obedecermos a alguns padrões, refrearmos os nossos desejos, controlarmos os nossos pensamentos, sublimarmos as nossas paixões, se nos abstivermos dos prazeres sexuais, então, após torturar suficientemente o corpo e o espírito, encontraremos uma certa coisa além desta vida desprezível. É isso o que se tem feito, no decurso dos tempos, milhões de indivíduos ditos religiosos, quer pelo isolamento, nos desertos, nas montanhas, numa caverna, quer peregrinando de aldeia em aldeia a esmolar, quer em grupos, ingressando em mosteiros e forçando a mente a ajustar-se a padrões estabelecidos. Mas, a mente que foi torturada, subjugada, a mente que deseja fugir a toda agitação, que renunciou ao mundo exterior e se tornou embotada pela disciplina e o ajustamento, essa mente, por mais longamente que busque, o que achar será em conformidade com a sua própria deformação.

Assim, para descobrir se de facto existe ou não alguma coisa além desta existência ansiosa, culpada, temerosa, competidora, parece-me necessário tomarmos um caminho completamente diferente. 
O caminho tradicional parte da periferia para dentro, para, através do tempo, da prática e da renúncia, atingir gradualmente aquela flor interior, aquela íntima beleza e amor, enfim, tudo fazer para nos tornarmos estreitos, vulgares e falsos; retirar as camadas uma a uma; precisar do tempo: amanhã ou na próxima vida chegaremos, e quando, afinal, atingimos o centro, não encontramos nada, porque a nossa mente se tornou incapaz, embotada, insensível.

Após observar esse processo, perguntamos a nós mesmos se não haverá outro caminho totalmente diferente, isto é, se não teremos possibilidade de `explodir´ do centro.
O mundo aceita e segue o caminho tradicional. A causa primária da desordem em nós existente é estarmos a procurar a realidade prometida por outrem; mecanicamente seguimos todo aquele que nos garante uma vida espiritual confortável. 

É um facto verdadeiramente singular esse, que, embora pela maioria sejamos contrários à tirania política e à ditadura, interiormente aceitamos a autoridade, a tirania de outrem, permitindo-lhe deformar a nossa mente e a nossa vida. Assim, se de todo rejeitarmos, não intelectual, porém realmente, a autoridade dita espiritual, as cerimónias, rituais e dogmas, isso significará que estamos sozinhos, em conflito com a sociedade; deixaremos de ser entes humanos respeitáveis. Ora, um ente humano respeitável, nenhuma possibilidade tem de aproximar-se daquela infinita, imensurável realidade.

Começais agora por rejeitar uma coisa que é totalmente falsa, o caminho tradicional, mas, se o rejeitardes como reacção, tereis criado outro padrão no qual vos vereis aprisionado como numa armadilha; se intelectualmente dizeis a vós mesmos que essa rejeição é uma ideia importante, e nada fazeis, não ireis mais longe. Se entretanto a rejeitardes por terdes compreendido quanto é estúpida e imatura, se a rejeitais com alta inteligência, porque sois livre e sem medo, criareis muita perturbação dentro e ao redor de vós, mas vos livrareis da armadilha da respeitabilidade. Vereis então que cessou o vosso buscar. Esta é a primeira coisa que temos de aprender: não buscar. Quando buscais, agis, com efeito, como se estivésseis apenas a olhar vitrinas.

A pergunta sobre se há Deus, verdade, ou realidade, ou como se queira chamá-lo, jamais será respondida pelos livros, pelos sacerdotes, filósofos ou salvadores. Ninguém e nada pode responder a essa pergunta, porém, somente vós mesmos, e essa é a razão por que deveis conhecer-vos. Só há falta de maturidade na total ignorância de si mesmo. A compreensão de si próprio é o começo da sabedoria.

E, que é vós mesmos, o vós individual? Penso que há uma diferença entre o ente humano e o indivíduo. O indivíduo é a entidade local, o habitante de qualquer país, pertencente a determinada cultura, uma dada sociedade, uma certa religião. 

O ente humano não é uma entidade local. Ele está em toda parte. Se o indivíduo só actua num certo canto, isolado do vasto campo da vida, a sua acção está totalmente desligada do todo. Portanto, é necessário ter em mente que estamos a falar do todo e não da parte, porque no maior está contido o menor, mas o menor não contém o maior. O indivíduo é aquela insignificante entidade condicionada, aflita, frustrada, satisfeita com os seus pequeninos deuses e tradições; já o ente humano está interessado no bem-estar geral, no sofrimento geral e na total confusão em que está o mundo.
































Nós, entes humanos, somos os mesmos que éramos há milhões de anos, enormemente ávidos, invejosos, agressivos, ciumentos, ansiosos e desesperados, com ocasionais lampejos de alegria e afeição. Somos uma estranha mistura de ódio, medo e ternura; somos ao mesmo tempo a violência e a paz. 

Têm-se feito progressos, exteriormente, do carro de boi ao avião a jacto, porém, psicologicamente, o indivíduo não mudou em nada, e a estrutura da sociedade, em todo o mundo, foi criada por indivíduos. A estrutura social, exterior, é o resultado da estrutura psicológica, interior, das relações humanas, pois o indivíduo é o resultado da experiência, dos conhecimentos e da conduta do homem, englobadamente. Cada um de nós é o depósito de todo o passado. O indivíduo é o ente humano que representa toda a humanidade. Toda a história humana está escrita em nós.

Observai o que realmente está a ocorrer dentro e fora de vós mesmos, na cultura de competição em que viveis, com o seu desejo de poder, posição, prestígio, nome, sucesso etc.; observai as realizações de que tanto vos orgulhais, todo esse campo que chamais viver e no qual há conflito em todas as formas de relação, suscitando ódio, antagonismo, brutalidade e guerras intermináveis.

Esse campo, essa vida, é tudo o que conhecemos, e como somos incapazes de compreender a enorme batalha da existência, naturalmente lhe temos medo e dela tentamos fugir pelas mais subtis e variadas maneiras. Temos também medo ao desconhecido, temor da morte, temor do que reside além do amanhã. Assim, temos medo ao conhecido e medo ao desconhecido. Tal é a nossa vida diária; nela, não há esperança alguma, e por conseguinte, qualquer espécie de filosofia, qualquer espécie de teologia representa meramente uma fuga à realidade, do que é.

Todas as formas exteriores de mudança, produzidas pelas guerras, revoluções, reformas; pelas leis e ideologias, falharam completamente, pois não mudaram a natureza básica do homem e, portanto, da sociedade. Como seres humanos, vivendo neste mundo monstruoso, perguntemos a nós mesmos: `Pode esta sociedade, baseada na competição, na brutalidade e no medo, terminar?; terminar, não como um conceito intelectual, como uma esperança, porém como um facto real, de modo que a mente se torne vigorosa, nova, inocente, capaz de criar um mundo totalmente diferente?´

Creio que isso só ocorrerá se cada um de nós reconhecer o facto central de que, como indivíduos, como entes humanos, seja qual for a parte do universo em que vivamos, não importando a que cultura pertençamos, somos inteiramente responsáveis por toda a situação do mundo.

Somos, cada um de nós, responsáveis por todas as guerras, geradas pela agressividade das nossas vidas, pelo nosso nacionalismo, egoísmo, os nossos deuses, preconceitos, ideais, pois tudo isso está a dividir-nos. E só quando percebemos, não intelectualmente, porém realmente, tão realmente como reconhecemos que estamos com fome ou que sentimos dor, bem como quando vós e eu percebemos que somos os responsáveis por todo este caos, por todas as aflições existentes no mundo inteiro, porque para isso contribuímos na nossa vida diária e porque fazemos parte desta monstruosa sociedade, com as suas guerras, divisões, a sua fealdade, brutalidade e avidez, só então poderemos agir.





Mas, que pode fazer 
um ente humano, 
que podeis vós 
e que posso eu fazer 
para criar uma sociedade completamente diferente? 






Estamos a fazer a nós mesmos uma pergunta muito séria. É necessário fazer alguma coisa? Que podemos fazer? Alguém no-lo dirá? Muita gente no-lo tem dito. Os chamados guias espirituais, que supõem compreender essas coisas melhor do que nós, no-lo disseram, tentando modificar-nos e moldar-nos em novos padrões, e isso não nos levou muito longe; homens sofisticados e eruditos no-lo têm dito, e também eles não nos levaram mais longe. Disseram-nos que todos os caminhos levam à verdade; vós tendes o vosso caminho, como hindu, outros o tem como cristão, e outros, ainda, o têm como muçulmano, etc; mas todos esses caminhos vão encontrar-se diante da mesma porta. Isso, quando o consideramos bem, é um evidente absurdo. 

A verdade não tem caminho, e essa é sua beleza; ela é viva. Uma coisa morta tem um caminho a ela conducente, porque é estática, mas, quando perceberdes que a verdade é algo que vive, que se move, que não tem pouso, que não tem templo, mesquita ou igreja, e que a ela nenhuma religião, nenhum instrutor, nenhum filósofo pode levar-vos, vereis então, também, que essa coisa viva é o que realmente sois, a vossa irascibilidade, a vossa brutalidade, a vossa violência, o vosso desespero, a agonia e o sofrimento em que viveis. Na compreensão de tudo isso se encontra a verdade. E só o compreendereis se souberdes como olhar tais coisas da vossa vida.

Mas não se pode olhá-las através de uma ideologia, de uma cortina de palavras, através de esperanças e temores.

Como vedes, não podeis depender de ninguém. Não há guia, não há instrutor, não há autoridade. Só existe vós, as vossas relações com outros e com o mundo, e nada mais. Quando se percebe esse facto, ou ele produz um grande desespero, causador de pessimismo e amargura; ou enfrentando o facto de que vós e ninguém mais sois o responsável pelo mundo e por vós mesmos, pelo que pensais, pelo que sentis, pela maneira como agis, desaparece de todo a auto-compaixão. Normalmente, gostamos de culpar os outros, o que é uma forma de auto-compaixão.

Poderemos, então, vós e eu, promover em nós mesmos, sem dependermos de nenhuma influência exterior, de nenhuma persuasão, sem nenhum medo de punição, poderemos promover em nossa própria essência uma revolução total, uma mutação psicológica, para que não sejamos mais brutais, violentos, competidores, ansiosos, medrosos, ávidos, invejosos, enfim, todas as manifestações da nossa natureza que formaram a sociedade corrompida em que vivemos a nossa vida de cada dia?






Importa compreender desde já que não estou a formular nenhuma filosofia ou estrutura de ideias ou conceitos teológicos. Todas as ideologias se me afiguram totalmente absurdas. O importante não é uma filosofia da vida, porém que observemos o que realmente está a ocorrer na nossa vida diária, interior e exteriormente. 
Se observardes muito atentamente o que se está a passar, se o examinardes, vereis que tudo se baseia num conceito intelectual. Mas o intelecto não constitui o campo total da existência; ele é um fragmento, e todo o fragmento, por mais engenhosamente ajustado, por mais antigo e tradicional que seja, continua a ser uma parte insignificante da existência, e nós temos de interessar-nos pela totalidade da vida. 

Quando consideramos o que está a ocorret no mundo, começamos a compreender que não há processo exterior nem processo interior; há só um processo unitário, um movimento integral, total, sendo que o movimento interior se expressa exteriormente, e o movimento exterior, por sua vez, reage ao interior. Ser capaz de olhar esse facto, eis o que é necessário, só isso; porque, se sabemos olhar, tudo se torna claríssimo. O acto de olhar não requer nenhuma filosofia, nenhum instrutor. Ninguém precisa ensinar-vos como olhar. Olhais, simplesmente.

Assim, ver todo esse quadro, e ver não verbalmente, porém realmente, podeis transformar-vos, natural e espontaneamente? 

Esse é que é o verdadeiro problema. Será possível promover uma revolução completa na psicose?








Eu gostaria de saber qual é a vossa reacção a uma pergunta dessas. Direis, porventura: `Não desejo mudar´; e a maioria das pessoas não o deseja, principalmente aqueles que estão em relativa segurança, social e economicamente, ou que conservam crenças dogmáticas e se satisfazem em aceitar a si próprios e às coisas tais como são ou em forma ligeiramente modificada. Tais pessoas não nos interessam. Ou talvez digais, mais subtilmente: `Ora, isso é dificílimo, está fora do meu alcance´. Nesse caso, já fechastes o caminho, já cessastes de investigar e será completamente inútil prosseguir. Ou, ainda, direis: `Percebo a necessidade de uma transformação interior, fundamental, em mim mesmo, mas como empreendê-la? Peço-vos que me mostreis o caminho, me ajudeis a alcançá-la´. Se assim falardes, então o que vos interessa não é a transformação em si, não estais realmente interessado numa revolução fundamental: estais, meramente, a buscar um método, um sistema capaz de efectuar a mudança.

Se fôssemos tão sem juízo que vos déssemos um sistema, e vós tão sem juízo que o seguísseis, estaríeis meramente a copiar, a imitar, a ajustar-vos, a aceitar, e, fazendo tal coisa, teríeis estabelecido em vós mesmos a autoridade de outrem, do que resultaria conflito entre vós e essa autoridade. Pensais que deveis fazer tal e tal coisa porque vo-la mandaram fazer, e no entanto, sois incapaz de fazê-la. Tendes as vossas peculiares inclinações, tendências e pressões, que colidem com o sistema que julgais dever seguir, e por conseguinte, existe uma contradição. Levareis, assim, uma vida dupla, entre a ideologia do sistema e a realidade da vossa existência diária. 

No esforço para ajustar-vos à ideologia, recalcais a vós mesmos, e no entanto, o que é realmente verdadeiro não é a ideologia, porém aquilo que sois. Se tentardes estudar-vos de acordo com outrem, permanecereis sempre um ente humano sem originalidade.

O homem que diz: `Desejo mudar, dizei-me como consegui-lo´, parece muito atento, muito sério, mas não o é. Deseja uma autoridade que ele espera estabelecerá a ordem nele próprio. 
Mas, pode algum dia a autoridade promover a ordem interior? 
A ordem imposta de fora gera sempre, necessariamente, a desordem. 

Podeis perceber essa verdade intelectualmente, mas sereis capaz de aplicá-la de maneira que a vossa mente não mais projecte qualquer autoridade, a autoridade de um livro, de um instrutor, da esposa ou do marido, dos pais, de um amigo, ou da sociedade? Como sempre funcionamos segundo o padrão de uma fórmula, essa fórmula torna-se em ideologia e autoridade; mas, assim que perceberdes realmente que a pergunta `como mudar?´, cria uma nova autoridade, tereis acabado com a autoridade para sempre.





Repitamo-lo claramente: Vejo que tenho de mudar completamente, desde as raízes do meu ser; não posso mais depender de nenhuma tradição, porque foi a tradição que criou essa colossal indolência, aceitação e obediência; não posso contar com outrem para me ajudar a mudar, com nenhum instrutor, nenhum deus, nenhuma crença, nenhum sistema, nenhuma pressão ou influência externa. O que sucede então? 

Em primeiro lugar, podeis rejeitar toda a autoridade? Se podeis, isso significa que já não tendes medo. E então o que acontece? 
Quando rejeitais algo falso que trazeis convosco há gerações, quando largais uma carga de qualquer espécie, o que acontece? Aumentais a vossa energia, não? Ficais com mais capacidade, mais ímpeto, maior intensidade e vitalidade. Se não sentis isso, nesse caso não largastes a carga, não vos livrastes do peso morto da autoridade.

Mas, uma vez vos tenhais livrado dessa carga e tenhais aquela energia em que não há medo de espécie alguma, medo de errar, de agir incorrectamente, essa própria energia não é então mutação?





Necessitamos de grande abundância de energia, e a dissipamos com o medo; mas, quando existe a energia que vem depois de nos livrarmos de todas as formas do medo, essa própria energia produz a revolução interior, radical. Nada tendes que fazer nesse sentido.

Ficais então a sós com vós mesmos, e esse é o estado real que convém ao homem que considera a sério estas coisas. E como já não contais com a ajuda de nenhuma pessoa ou coisa, estais livre para fazer descobertas. 




Quando há liberdade, 
há energia; quando há liberdade, ela não pode 
fazer nada errado. 
A liberdade difere inteiramente da revolta. 
Não há agir correcta ou incorrectamente, 
quando há liberdade. 
Sois livre, e 
desse centro, agis. 
Por conseguinte, não há medo, e a mente sem medo 
é capaz de infinito amor. 
E o amor pode fazer 
o que quer.




O que agora vamos fazer, por conseguinte, é aprender a conhecer-nos, não de acordo comigo ou de acordo com um certo analista ou filósofo; porque, se o fazemos de acordo com outras pessoas, aprendemos a conhecer essas pessoas e não a nós mesmos. Vamos aprender o que somos realmente.

Tendo percebido que não podemos depender de nenhuma autoridade exterior para promover a revolução total na estrutura da nossa própria psicose, apresenta-se a dificuldade infinitamente maior de rejeitarmos a nossa própria autoridade interior, a autoridade das nossas próprias e insignificantes experiências e opiniões acumuladas, conhecimentos, ideias e ideais. 






Digamos que tivestes ontem uma experiência que vos ensinou algo, e isso que ela ensinou se torna uma nova autoridade, e a vossa autoridade de ontem é tão destrutiva quanto a autoridade de um milhar de anos. A compreensão de nós mesmos não requer nenhuma autoridade, nem a do dia anterior nem a de há mil anos, porque somos entidades vivas, sempre em movimento, sempre a fluir e jamais se detendo. Se olhamos a nós mesmos com a autoridade morta de ontem, nunca compreenderemos o movimento vivo e a beleza e natureza desse movimento.

Livrar-se de toda a autoridade, seja própria, seja de outrem, é morrer para todas as coisas de ontem, para que a mente seja sempre fresca, sempre juvenil, inocente, cheia de vigor e de paixão. Só nesse estado é que se aprende e observa. Para tanto, requer-se grande capacidade de percebimento, de real percebimento do que se está a passar no interior de vós mesmos, sem corrigirdes o que vedes, nem dizerdes o que deveria ou não deveria ser. Porque, tão logo corrigis, estais a estabelecer outra autoridade, um censor.

Vamos, pois, investigar juntos a nós mesmos; ninguém ficará a explicar enquanto ides ler, concordar ou discordar do explicador ao mesmo tempo que ides seguindo as palavras do texto, porém vamos fazer juntos uma viagem, uma viagem de exploração dos mais secretas profundidades da nossa mente. Para empreender essa viagem, precisamos de estar livres; não podemos transportar uma carga de opiniões, preconceitos e conclusões, todos os trastes imprestáveis que juntamos no decurso dos últimos dois mil anos ou mais. Esquecei-vos de tudo o que sabeis a respeito de vós mesmos.

Esquecei-vos de tudo o que pensastes a vosso respeito; vamos iniciar a marcha como se nada soubéssemos.
A noite passada choveu torrencialmente e agora o céu está a começar a limpar-se; é um dia novo, fresco. Encontremo-nos com este dia novo como se fosse o nosso único dia. Iniciemos juntos a jornada, deixando para trás todas as lembranças de ontem, e comecemos a compreender-nos pela primeira vez."


Jiddu Krishnamurti
"Liberte-se do passado"























































"The monstrous thing is not that men have created roses out of this dung heap, but that, for some reason or other, they should want roses. For some reason or other man looks for the miracle, and to accomplish it he will wade through blood. He will debauch himself with ideas, he will reduce himself to a shadow if for only one second of his life he can close his eyes to the hideousness of reality. Everything is endured, disgrace, humiliation, poverty, war, crime, ennui, in the belief that overnight something will occur, a miracle, which will render life tolerable. 
And all the while a meter is running inside and there is no hand that can reach in there and shut it off."



Henry Miller
"Tropic of cancer"


















t.






































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